Design e ensino: breve questionamento.
Posted 10 de outubro de 2011 – 9:05 in: PesquisasO estímulo ao questionamento da forma com que se dá a prática projetual deve ser tão valorizado quanto a prática que parte de conhecimentos e métodos pré-estabelecidos. O equilíbrio entre a teoria e prática deve proporcionar a reflexão e a evolução conjunta dessas duas constantes, e não a separação causada pela dicotomia forçada.
O indivíduo modifica e é modificado pelo todo. Direcionando essa afirmação ao ensino institucionalizado, pode-se afirmar que o conhecimento é tão mutante quanto o conhecedor. Logo, a necessidade de adequação do método ao contexto deve levar em consideração essa capacidade transformativa.
E o que nos leva à busca pela melhoria? A reposta para isso poderia ser escrita em 20 mil ou mais páginas, mas é possível observar que a ação de comparar pode ser um dos pilares dessa busca. Visualizamos o que existe, diferenciamos comparando com outro elemento e por meio dessa comparação analisamos os pontos negativos e positivos. Idealizamos o que seria melhor. Bonsiepe, em seu Design, Cultura e Sociedade, destaca que “sem um elemento utópico, não será possível construir um mundo diferente e restaria apenas um desejo impiedoso e étero sem maiores consequências” (2011, p.20).
A capacidade reflexiva do aprendiz deve ser estimulada através da mediação do professor, obviamente valorizando o conhecimento já existente. Porém, essa valorização não pode desencorajar a geração de questionamentos e a formulação de melhorias por parte do corpo discente. Esse é o ponto fundamental deste questionamento.
Para Flusser, “a história humana… trata-se de um círculo, que gira da natureza à cultura, da cultura ao lixo, do lixo à natureza…” (2007, p.61). O designer, como mediador dessa interação, assim como todos os seres humanos (cada qual com suas especificidades), é um potencial gerador de equilíbrio dentro desse sistema. Mas, como estimular a multiplicação das áreas visíveis? Aí temos outro agente com papel fundamental: o Professor. Mas, cabe ressaltar, não é de grande valia utilizar a superficial visão de que cai sobre ele toda a responsabilidade do processo de ensino. A instituição, a liderança política, a oposição política, os movimentos não governamentais, o cidadão, etc.
Novamente retorna a frase: o indivíduo modifica e é modificado pelo todo.
Bibliografia relevante:
BONSIEPE, Gui. Design, cultura e sociedade. São Paulo: Blucher, 2011.
FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
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Primeiro contato, design e o vício da economia.
Posted 22 de agosto de 2011 – 14:45 in: PesquisasPara MATURANA (1998, p.68), “o uso que o homem dá à máquina não é um recurso da organização desta, porém é o domínio em que ela opera…”. O objetivo é buscado pelo usuário, logo forma também parte do campo interpretativo dele.
A questão do primeiro contato, do “amor à primeira vista”, “primeira impressão é a que fica”, ou alguns outros clichês, embora em algumas situações extremamente cansativas e irritantes (talvez em algumas obras audiovisuais), são exemplos que podem propiciar excelentes resultados para a formatação (ou reformulação) de novos (ou antigos) produtos.
A primeira interação com algo pode levar aos extremos a resposta sensível da percepção. Alguns anos atrás, conversando assuntos “aleatórios” com um velho amigo, ele tentou explicar os sentimentos de quando comprou seu primeiro carro. Segundo ele, ao entrar no veículo pela primeira vez o fez lentamente, tomando cuidado para não riscar alguma parte da superfície da porta e do assento, algo parecido a estar segurando um copo de 40 milhões de francos suíços. Nos primeiros dias de interação com o carro, contava ele, cada nova funcionalidade, cada nova reação diferente do carro, surpreendia.
Lembro de ter um sentimento semelhante no momento em que chegou ao meu apartamento um produto encomendado via internet, no início do século atual. Tratava-se de um modulador de som (pedal) para guitarra, porém feito tendo uma lata de sardinha como estrutura de suporte. Mas independente do tipo de produto, o primeiro contato teve grande importância no futuro da relação entre usuário/produto. No meu caso o pedal virou peça de museu domiciliar de estante, posteriormente substituído por livros velhos que não foram lidos.
O primeiro contato, se visualizarmos um caso relativo a sítios web, por exemplo, possui grandes semelhanças com o caso de um produto tátil extra-virtual. Uma campanha apresentada em um hotsite pode muito bem focar uma quantidade muito pequena de contato com os usuários, e isso não irá necessariamente prejudicar os objetivos. Lembro aqui da campanha virtual sobre o novo uno (a letra minúscula é mera coincidência), feita pela fabricante alguns meses atrás. Cores, movimento, carnaval em plena web. No primeiro curioso acesso o entretenimento durou alguns minutos, no segundo não. E provavelmente esse era o objetivo da campanha.
Nas reflexões de alguns o design pode ser o meio para o movimento do mundo, ou o bem necessário. Mas lembremos que o produto é feito para durar o tempo necessário para que a nova versão seja lançada. Isso nem sempre foi assim, até por isso é de se respeitar e refletir a opinião de que o design é um mal essencial para a manutenção de paradigmas macroeconômicos. Um exemplo pode ser visto nos estudos de Adrian Forty, mais especificamente com relação à modificação na aparência dos aspiradores de pó da década de 30. Segundo o autor, um dos motivos para tal variação “foi que os fabricantes estavam ansiosos para aumentar as vendas e passaram a usar a recente descoberta da indústria automobilística de que o consumo podia ser estimulado com a introdução de designs novos” (2007, p. 241).
A obsolescência, então, era a última e talvez mais importante linha da regra. E hoje, pode-se dizer que ela é a segunda linha, aquela que aparece logo após o nome do produto? É verdade, os pôneis podem parecer menos malditos se analisarmos o contexto em que se situam.
Bula:
FORTY, Adrian. Objetos de desejo: design e sociedade desde 1750. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
MATURANA, Humberto. De máquinas y seres vivos. Autopoiesis: la organización de lo vivo. Santiago de Chile: Editorial Universitaria, 1998.
Este artigo é parte integrante da monografia de conclusão do curso de Especialização em Docência do Ensino Superior. Autor: Leonardo B. Barreiro. Instituição: AVM Faculdade Integrada.
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